Se você gosta de Yayoi Kusama, que artistas contemporâneos ver
Quem busca artistas parecidos com Yayoi Kusama (n. 1929) procura o mesmo procedimento, não o mesmo motivo: repetição de uma unidade mínima até ela virar campo, escala que envolve o corpo do espectador e obsessão como método de trabalho. Bridget Riley, Chiharu Shiota e, no Brasil, Beatriz Milhazes seguem esse território — cada uma por um caminho técnico próprio.
O que caracteriza tecnicamente o trabalho de Kusama
Yayoi Kusama nasceu em 1929 em Matsumoto, na província de Nagano, Japão, quarta criança de uma família que administrava um viveiro de plantas com estufa e terreno próprio para coleta de sementes. Ainda criança, começou a ter alucinações visuais que se tornariam a origem do seu vocabulário adulto. Em suas próprias palavras: "One day, after gazing at a pattern of red flowers on the tablecloth, I looked up to see that the ceiling, the windows, and the columns seemed to be plastered with the same red floral pattern" — ela via um padrão de flores da toalha de mesa se espalhar pelo teto, pelas janelas e pelas colunas do cômodo, uma experiência que a aterrorizava porque ninguém mais ao redor percebia a mesma coisa.
Kusama chegou a Nova York em junho de 1958 e logo iniciou a série Infinity Nets — pinturas monocromáticas cobertas por pequenos arcos de tinta repetidos até formarem manchas e pontos. No. 2. J.B. (1960), hoje na coleção do Solomon R. Guggenheim Museum, é um exemplo dessa fase: óleo e flores de arroz sobre tela, 125,7 x 176,2 cm. Sobre o impulso por trás dos pontos, ela escreveu em sua autobiografia: "predict and measure the infinity of the unbounded universe, from my own position in it" — prever e medir o infinito do universo sem fronteiras, a partir da própria posição nele. Artistas do grupo ZERO viram uma Infinity Net semelhante na mostra alemã Monochrome Malerei, em 1960, reconheceram interesses em comum — monocromia, dinamismo, repetição serial — e a convidaram a expor em Amsterdã e na Filadélfia.
A repetição, para Kusama, não é recurso decorativo, é método. Segundo a Tate, a própria artista relata que o padrão que desenhava chegava a extrapolar os limites da tela e tomar o chão e a parede ao redor — a mesma expansão que via em suas alucinações de infância. Desde 1977 vive por opção numa instituição psiquiátrica em Tóquio, de onde segue trabalhando em estúdio das nove às seis, com uma equipe de assistentes. A obsessão, apontada por ela mesma como tema central da obra, e a acumulação — que a artista lê como reflexo da repetição infinita do próprio universo — sustentam tanto os Infinity Nets quanto as instalações imersivas de espelhos que vieram depois.
Repetição em escala internacional: Bridget Riley e Chiharu Shiota
Bridget Riley (n. 1931, Norwood, Londres) chega à repetição por outra porta: não a obsessão psicológica, mas a física da percepção. Formada no Goldsmiths College (1949-52) e no Royal College of Art (1952-55), Riley passou da pintura pós-impressionista ao estudo do pontilhismo até desenvolver, a partir de 1960, o vocabulário que a tornaria uma das figuras centrais da Op Art: composições de linhas e pontos repetidos com precisão, organizados para produzir profundidade, movimento e vibração diante do olho. Fall (1963), hoje na Tate, é um exemplo do efeito desestabilizador que essa repetição geométrica provoca no espectador. Onde Kusama repete para conter uma visão interior, Riley repete para construir, com rigor, uma ilusão ótica externa — dois procedimentos de repetição, duas intenções opostas.
Chiharu Shiota (n. 1972, Osaka, radicada em Berlim desde meados dos anos 1990) leva a repetição para a arquitetura do espaço. Shiota constrói instalações monumentais de linha — teias densas de fio que envolvem salas inteiras, com objetos cotidianos (chaves, sapatos, vestidos, documentos) presos dentro da malha como vestígios de corpos e vidas ausentes. Em The Key in the Hand, o Pavilhão do Japão na 56ª Bienal de Veneza (2015), ela suspendeu cerca de 180 mil chaves em fios vermelhos sobre dois barcos na galeria do pavilhão, criando um teto de memória sob o qual o visitante caminha. A escala aqui não é ornamento: é o que transforma um gesto repetido — amarrar um fio, prender uma chave — em ambiente que envolve o corpo inteiro do espectador, a mesma função que a repetição cumpre nas salas de espelho infinito de Kusama.
No Brasil: Beatriz Milhazes e a repetição do padrão
Beatriz Milhazes (n. 1960, Rio de Janeiro) trabalha a repetição pelo lado oposto ao de Kusama: não a obsessão biográfica, mas a construção deliberada de padrão. Seu método é próprio — pinta motivos (arabescos, flores, formas geométricas) sobre papel e depois os transfere para a tela, um processo que apaga o traço direto da mão e aproxima o resultado de algo quase gerado por máquina, mesmo exigindo trabalho manual intenso. A artista descreve sua prática como uma digestão de referências que incluem os arabescos de Matisse, a estrutura de Mondrian, a arquitetura barroca brasileira e o folclore visual e musical do país. Suas obras integram acervos como o do MoMA e o Guggenheim.
O ponto de contato com Kusama está na estrutura, não na superfície: camadas sobrepostas de padrão e cor que se acumulam até formar campo, com lógica geométrica rigorosa por trás da aparente exuberância. A diferença central é a origem do impulso — em Milhazes, a repetição nasce de uma construção racional e cultural; em Kusama, de uma necessidade psicológica de conter uma visão. Procedimento parecido, motor completamente diferente.
Kusama trabalha só com bolinhas? O que fica de fora da comparação
Não. As Infinity Nets e os pontos são a porta de entrada mais conhecida, mas a obra de Kusama atravessa pintura, desenho, escultura, cinema, performance e instalação imersiva. As esculturas moles da série Accumulations, os ambientes de espelho como Infinity Mirrored Room — Filled with the Brilliance of Life (2011/2017) e as esculturas de abóbora fazem parte do mesmo corpo de trabalho, todas construídas com o mesmo princípio: repetir uma unidade até ela deixar de ser objeto isolado e virar espaço. É esse princípio — repetição que constrói ambiente, não o motivo específico do ponto — que orienta a comparação com os artistas citados aqui: nenhum deles pinta bolinhas, mas todos constroem campo pela repetição.
O olhar do ateliê
O que Prism Garden compartilha com a lógica de repetição de Kusama — e o que não compartilha
Quando alguém me pergunta sobre Kusama, penso em Prism Garden. Não pelo ponto — não trabalho com bolinhas —, mas pela lógica de acumulação: construí essa tela em camadas de aguada, pigmento diluído até se mover sozinho, repetidas até a cor deixar de ser superfície e virar clima. Cada fio vertical de amarelo que desce pela composição é o mesmo gesto repetido em posições diferentes, até o conjunto formar um campo contínuo — não um motivo isolado, um ambiente.
Não me aproximo da trajetória de Kusama — não tenho seis décadas de carreira nem uma sala de museu dedicada à minha obra. O que reconheço é o mesmo instinto de trabalho: confiar que repetir um gesto simples, sustentado por tempo e camadas suficientes, constrói mais presença do que qualquer imagem única. É esse instinto — não a bolinha, não a escala de museu — que atravessa da pintura dela para a minha.
Perguntas frequentes
Que artistas têm proposta parecida com a de Yayoi Kusama?
Bridget Riley trabalha repetição de linhas e pontos para criar ilusão ótica (Op Art); Chiharu Shiota constrói instalações monumentais de fio que repetem um gesto até formar ambiente; no Brasil, Beatriz Milhazes repete e sobrepõe padrões florais e geométricos transferidos de papel para tela. Nenhuma reproduz o procedimento de Kusama — cada uma chega à repetição e à escala imersiva por um caminho técnico próprio.
O que caracteriza o trabalho de Kusama (padrão, repetição, escala)?
Repetição de uma unidade mínima — o ponto, o arco de tinta — até ela cobrir superfícies inteiras e, depois, ambientes inteiros. A série Infinity Nets, iniciada logo após sua chegada a Nova York em 1958, já trabalhava esse princípio em pintura monocromática; décadas depois, o mesmo princípio orienta as instalações de espelho que envolvem o corpo do espectador. Kusama liga a origem dessa repetição a alucinações visuais da infância, em Matsumoto.
Existem artistas brasileiros com abordagem parecida com a de Kusama?
Beatriz Milhazes (n. 1960, Rio de Janeiro) é o nome mais próximo em procedimento: repetição e sobreposição de padrões — florais, arabescos, formas geométricas — transferidos de papel para tela, com lógica geométrica rigorosa por trás da exuberância cromática. A diferença central é a origem do impulso: em Milhazes, racional e cultural; em Kusama, psicológica.
Kusama trabalha só com bolinhas?
Não. Pontos e Infinity Nets são a porta de entrada mais conhecida, mas sua obra inclui esculturas moles (Accumulations), instalações de espelho, performance, cinema e as esculturas de abóbora. Todas seguem o mesmo princípio: repetir uma unidade até ela deixar de ser objeto isolado e se tornar espaço.
Onde ver obras de Kusama?
No. 2. J.B. (1960), uma de suas primeiras Infinity Nets, está na coleção do Solomon R. Guggenheim Museum, em Nova York. Instalações de espelho e outras obras suas circulam em exposições no Guggenheim Bilbao, na Tate Modern (Londres) e no Yayoi Kusama Museum, em Tóquio.
Fontes
- National Gallery of Victoria (NGV) — 2026-08-20
- The Guggenheim Museums and Foundation — 2026-08-20
- Tate — 2026-08-20
- Tate — 2026-08-20
- Asian Art Museum, San Francisco — 2026-08-20
- The Japan Foundation — Japan Pavilion, La Biennale di Venezia — 2026-08-20
- AWARE — Archives of Women Artists, Research and Exhibitions — 2026-08-20
- Tate — 2026-08-20
- Perfeito Studio — fonte interna do acervo — 2026-08-20
Repetição e camadas, sem forçar comparação de estatura
Prism Garden trabalha acumulação de camadas translúcidas com a mesma lógica de repetição manual — fale com o ateliê para fotos de perto e vídeo da textura em luz natural.
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