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Prado ou Reina Sofía: qual visitar em Madri

Se o tempo for curto, a escolha depende do que você quer ver: o Prado reúne pintura europeia do século XII ao início do XX, com foco em mestres espanhóis, italianos e flamengos; o Reina Sofía concentra arte moderna e contemporânea, com o Guernica de Picasso como peça central. Os dois ficam a poucos minutos a pé um do outro.

Fachada neoclássica do Museo del Prado, em Madri — fotografia de Dmadeo, Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
Fachada do Museo del Prado, em Madri — a poucos minutos a pé do Museo Reina Sofía, ambos no eixo Paseo del Arte. Fachada do Museo del Prado, fotografia de Dmadeo. Wikimedia Commons. Fonte: commons.wikimedia.org, CC BY-SA 3.0.

O que cada museu reúne: dois recortes de tempo

O Museo del Prado guarda pintura europeia do século XII ao início do XX, com o núcleo mais forte na escola espanhola — o turismo oficial de Madri descreve essa coleção como a mais completa coleção de pintura espanhola do mundo. O acervo soma cerca de 7.600 pinturas, e o artista mais representado é Francisco Goya. As referências centrais são Velázquez (As Meninas), El Greco e Hieronymus Bosch (O Jardim das Delícias Terrenas), além de núcleos importantes de pintura italiana (Ticiano) e flamenga (Rubens) — um dos maiores conjuntos de mestres italianos fora da Itália.

O Museu Reina Sofía trabalha do outro lado do corte histórico: arte moderna e contemporânea, com a coleção pensada, na origem, a partir de 1881 — o ano de nascimento de Picasso, tomado como divisor conceitual entre o que fica no Prado e o que passa a ser Reina Sofía. Picasso é o eixo declarado do acervo; ao redor dele estão Dalí, Miró, Juan Gris e nomes internacionais como Louise Bourgeois e Francis Bacon, além de formatos que o Prado não tem — filme, vídeo, performance.

Onde está o Guernica — e por que não é no Prado

O Guernica está no Reina Sofía, não no Prado. Picasso pintou o mural entre 1 de maio e 4 de junho de 1937, em Paris — óleo sobre tela de 349,3 por 776,6 cm — como resposta ao bombardeio da cidade basca de Guernica durante a Guerra Civil Espanhola. O Estado espanhol adquiriu a obra do próprio Picasso ainda em 1937, mas por causa da Segunda Guerra Mundial ela ficou depositada no MoMA, em Nova York; em 1958 Picasso estendeu o empréstimo indefinidamente, sob a condição de que só voltasse à Espanha quando as liberdades democráticas fossem restabelecidas. Isso aconteceu em 1981, e a obra passou a integrar oficialmente o acervo do Reina Sofía em 1992.

É por isso que o Guernica funciona como a peça fundadora do museu: boa parte da coleção do Reina Sofía foi organizada ao redor dele, para dar a essa tela o contexto histórico e artístico à altura do que ela representa.

Dá para visitar os dois no mesmo dia

Dá, e com folga de tempo — os dois museus ficam a poucos minutos de caminhada um do outro, no mesmo eixo urbano, o Paseo del Arte. Da estação de metrô Estación del Arte, que fica entre os dois, o Reina Sofía é cerca de 3 minutos a pé e o Prado cerca de 5 — e os três museus do eixo, somando o Thyssen-Bornemisza, cabem dentro de uma caminhada de até 15 minutos entre as portas mais distantes.

A região do Paseo del Prado e do Parque do Retiro, que reúne os três museus, foi reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial em 2021. Ou seja: o próprio trajeto entre um museu e outro atravessa uma paisagem histórica registrada — não é só deslocamento, é parte do que se visita em Madri.

Qual escolher se o tempo for curto

Se só dá para escolher um: vá ao Prado se o que te atrai é pintura antes do modernismo — a construção da imagem por camada, o retrato de corte, a luz que Velázquez e Goya resolvem sem recorrer a nenhuma abstração. É o museu certo para quem quer entender de onde vem a tradição pictórica ocidental, com Bosch e a pintura flamenga como contraponto ao eixo espanhol.

Vá ao Reina Sofía se o interesse é o século XX em diante — a ruptura que Picasso protagoniza a partir do cubismo, o surrealismo de Dalí, e a forma como a arte passa a incorporar vídeo e performance depois da pintura. Quem já viu reproduções do Guernica a vida toda e quer o mural em tamanho real na frente vai direto ali. Com dois ou três dias em Madri, a resposta certa é não escolher — os dois cabem, e o contraste entre eles é parte do que torna a visita interessante.

O olhar do ateliê

O olhar do ateliê

Formada em arquitetura, presto atenção primeiro no edifício, não na primeira parede de quadros. O Reina Sofía me interessa por isso: o museu ocupa um hospital fundado no século XVI e reconstruído no XVIII, principalmente sob projeto de Francisco Sabatini, ampliado em 2005 por Jean Nouvel — arte contemporânea instalada dentro de uma estrutura pensada, séculos atrás, para cuidar de doentes, não para expor Picasso. A costura entre o prédio antigo e o bloco novo fica visível para quem procura, e isso já é uma lição de composição antes de qualquer quadro na parede.

A mesma pergunta — o que um recorte de tempo revela quando se olha em camada — atravessa a série Terra & Ether, que trabalho como um corte geológico: pigmento sobre pigmento, um estrato guardando o anterior sem apagar o que veio antes. Um museu como o Prado organiza séculos numa sequência contínua de salas; o Reina Sofía escolhe um ano de corte, 1881, e segue em frente a partir dali. As duas lógicas de tempo — a contínua e a que assume um ponto de ruptura — são, no fundo, decisões de composição, do mesmo tipo que tomo quando decido onde uma camada de tinta termina e a próxima começa.

Perguntas frequentes

Qual a diferença de acervo entre o Prado e o Reina Sofía?

O Prado reúne pintura europeia do século XII ao início do XX, com o núcleo mais forte na escola espanhola — Velázquez, Goya, El Greco — além de coleções fortes de pintura italiana e flamenga, incluindo Ticiano, Rubens e Bosch. O Reina Sofía trabalha do outro lado do corte: arte moderna e contemporânea, historicamente organizada a partir de 1881, ano de nascimento de Picasso, que é o eixo declarado da coleção. Ao redor dele estão Dalí, Miró, Juan Gris e nomes internacionais, além de vídeo e performance — formatos que o Prado não tem.

Dá para visitar os dois no mesmo dia?

Dá, com folga. Os dois museus ficam no mesmo eixo urbano, o Paseo del Arte — da estação de metrô Estación del Arte, entre eles, são cerca de 3 minutos a pé até o Reina Sofía e 5 até o Prado. Somando o Thyssen-Bornemisza, as três portas cabem numa caminhada de até 15 minutos. O desafio real não é a distância, é o tempo dentro de cada museu: os dois acervos são grandes o bastante para ocupar uma manhã inteira cada um, então vale planejar dois períodos do dia, não duas visitas relâmpago.

Qual dos dois tem o Guernica de Picasso?

O Guernica está no Reina Sofía. Picasso pintou o mural entre 1 de maio e 4 de junho de 1937, em Paris, como resposta ao bombardeio da cidade basca de Guernica na Guerra Civil Espanhola. O Estado espanhol adquiriu a obra ainda em 1937, mas por causa da Segunda Guerra Mundial ela ficou depositada no MoMA, em Nova York, até voltar à Espanha em 1981 — só entrando oficialmente no acervo do Reina Sofía em 1992. É a peça fundadora do museu: boa parte da coleção foi organizada ao redor dela.

Qual museu é melhor para quem gosta de arte clássica?

O Prado. É o museu certo para quem quer ver a pintura ocidental antes do modernismo resolvida em alto nível — a luz e a composição de Velázquez, o retrato de corte espanhol, a virada dramática de Goya entre a pintura oficial e as Pinturas Negras, e o imaginário radical de Bosch, um dos raros pontos em que a pintura flamenga do século XV parece falar diretamente com o presente. A coleção italiana, com Ticiano à frente, completa o quadro de um museu pensado para quem quer entender de onde vem a tradição da pintura europeia.

Qual museu é melhor para quem gosta de arte moderna e contemporânea?

O Reina Sofía. A coleção segue a virada do século XX a partir de Picasso — do cubismo ao Guernica — e continua até a arte contemporânea, incluindo vídeo, instalação e performance, formatos que o Prado simplesmente não cobre. É o museu certo para quem quer ver o surrealismo de Dalí, o cubismo de Juan Gris e a ruptura que a arte espanhola protagonizou no século XX, num prédio que também é, ele mesmo, um exercício de arquitetura contemporânea sobre uma base do século XVIII.

De volta de Madri com um museu preferido?

Se o que te atraiu foi a força cromática do lado moderno do Reina Sofía, ou a construção material da pintura clássica do Prado, vale conhecer o que se faz hoje, em Brasília: as telas em técnica mista de Alyne Perfeito trabalham camada, pigmento e ouro como um estrato que se forma aos poucos. Fale com o ateliê pelo WhatsApp.

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